27 de Fevereiro de 2012

primavera

E foi quando um aroma doce lhe encheu as narinas e o coração. Foi quando o sol decidiu mostrar o seu lado majestoso. Foi quando os pássaros decidiram levantar voo e viajar pelo mundo inteiro. Foi quando as pernas quiseram pular estrada fora. Foi quando os olhos quiseram olhar e ver tudo. Tudo.
As flores quiseram flutuar ao sabor do vento e as árvores quiseram pintar-se de cores vivas. O calor esquenta a pele, oferecendo bem-estar sem pedir nada em troca.
A natureza solta assim um cântico inaudível mas feliz que só alguns sentem ou estão dispostos a sentir. Envolve-nos assim nesta sinfonia de odores, de brisa suave que puxa o cabelo para os olhos. Inspira-nos, arranca-nos sorrisos tolos, faz os sonhos voarem mais alto. E eu que tinha os meus presos por um cordel de estrelas.

15 de Fevereiro de 2012

metafísica intemporal

Há quem diga que há tempo para tudo. Para mim, o tempo é apenas uma palavra aborrecida que insiste em limitar os sorrisos, a ânsia de viver, de ser mais e maior. O tempo? Somos nós que o tecemos, que o cultivamos, que geramos no nosso ventre. 
O tempo é nada e é tudo. Eu gostava de ser tudo mas há momentos em que sou simplesmente nada. E o ser humano deve saber ser nada, deve saber-se humildar perante a vida, perante o destino, perante a metafísica.
Afinal de contas, o que somos nós?

8 de Fevereiro de 2012

intermitência sem gente


Este copo de leite vazio que ainda me aquece as mãos geladas. Esta luz pálida e reconfortante que traz à vista a sombra de quem sou. Poderia ficar aqui, na beira da cama, durante horas, a pensar, a olhar, ora para o chão, ora para as paredes, para a cama, para o tecto. Em silêncio poderia pôr mil ideias em ordem, fazer duzentas anotações mentais, calcular trezentas e cinquenta e uma hipóteses, poderia deitar-me e dormir. 
Mas não. Há que ficar aqui a olhar sem ver, a pensar sem lógica, a divagar, a flutuar sobre mim. E como é bom poder ouvir o silêncio que enche este espaço, que se enfeita de grandiosidade infinita e graciosa. Como é bom poder estar na beira da cama sem eira nem beira, nesta intermitência sem gente, neste impasse vagabundo, nesta melancolia sem passado nem futuro. Como é bom não decidir, não julgar, não ponderar. Como é bom saborear esta ataraxia solitária em plena madrugada. Como é bom despir-me de quem sou e vestir a sombra de quem sou por breves momentos. Momentos finitos, momentos que se perdem num lugar abstracto.