26 de dezembro de 2011

Obrigada 2011. 2012, és bem-vindo.


2011 está perto do fim. Com ele encerram-se momentos, sorrisos, memórias, lágrimas, surpresas, desilusões, emoções. 2011 redefiniu-me enquanto pessoa, moldou a minha personalidade. 2011 preparou-me para 2012 e para os que se seguem. 
Em 2011 tomei decisões importantes, fiz promessas para a vida. Evoluí profissionalmente - alcancei metas, superei-me, senti o sabor da realização. Em 2011 sonhei, impus novos limites que estão à espera de ser ultrapassados. 

2012, recebo-te de braços abertos. 
Peço sorrisos. E lágrimas. São elas que nos fazem crescer. 

1 de novembro de 2011

As pessoas.


As pessoas são estranhas.
As pessoas são um recipiente que encerra um conteúdo desconhecido.
Cada pessoa é um fenómeno único e irrepetível na natureza.
As pessoas magoam(-se), amam(-se), odeiam(-se).
As pessoas conseguem ser pessoais e impessoais.
As pessoas são seres (ir)racionais.
As pessoas são autênticas caixas de pandora.
Cada pessoa encerra um incrível potencial no seu interior.
Cada pessoa tem o infinito dentro de si. Muitas não conseguem passar sequer a linha do horizonte.
Muitas pessoas insistem em actuar como se estivessem vendadas.
Algumas pessoas teimam em deixar os sonhos morrer. E morrem com eles.
As pessoas não sabem porquê e para quê.
As pessoas quiseram voar e inventaram o avião. Bastava a imaginação.
Cada pessoa acha que tem domínio completo sobre si mesma mas é mentira.
As pessoas são injustas.
Cada pessoa é perfeita na sua imperfeição.
As pessoas perdem a inocência com o passar dos anos. E perdem-se a si mesmas.
As pessoas acham que têm tudo quando na verdade têm sempre quase tudo.
As pessoas são egoístas.
As pessoas não sabem a razão da sua existência e, por isso, tentam arranjar uma.
As pessoas são seres desassossegados à procura de si mesmas.
Algumas pessoas marcam a diferença mas nem sempre da melhor maneira.
As pessoas gostam de imortalizar outras para aumentar o ego da sua espécie.
As pessoas agem por impulso.
As pessoas são geniais.
As pessoas vieram todas do mesmo molde. Depois moldaram-se à sua maneira.
Muitas pessoas suspiram pela vida e outras pela ausência dela.
As pessoas escondem partes de si.
As pessoas são observadores passivos de uma realidade activa.
Cada pessoa pode melhorar a vida de outros e o mundo em que habita.
As pessoas mudam.

3 de outubro de 2011

Nostalgia do meu bem perdido - 2

Desço a ravina aos solavancos e um cheiro doce a uvas maduras desperta-me os sentidos. Folhas secas povoam o chão e eu sigo o meu percurso de memórias guardadas. Ao longe, ouço o som abafado de conversa de vizinhas pautada pelo murmúrio das aves. Há maças caídas no quintal, galinhas a esgaravetar, um cão que ladra de saudade, uma sardanisca no muro, um gato vadio ao sol.
Verde, amarelo, bege e azul são as cores que preenchem esta paisagem bucólica dominada por uma discreta pacatez tão característica. As árvores deixam-se levar pela brisa suave, quente. Eu também. A melancolia invade-me aos poucos, como se pedisse permissão para levar cada pedaço meu. Sinto-me livre, despreocupada. Como se esta ambiência me levasse para bem longe e me enchesse a alma de sossego. Mas outrora não era assim ...
E a descida íngreme continua, ladeada por ervas daninhas donas de uma beleza única e rebelde.
Fecho os olhos. Há coisas de que não me quero lembrar. E entretanto sinto o aroma leve de despedida. Aroma de infância perdida.

28 de setembro de 2011

Nostalgia do meu bem perdido - 1

Caminho pelas pedras gastas da calçada. Cada uma delas traz uma memória à minha cabeça. Caminho lentamente com a solidão, com a mente embebida em sonhos, rercordações, pedaços de mim que se perderam há muito tempo. Ao pisar as pedras da calçada, tudo se reúne novamente, como se o meu interior fosse um colar de pérolas que quebrou.
As pérolas esparsas vão-se juntando. Ganham um brilho enternecedor. E os olhos enchem-se de lágrimas e um sorriso é pintado nos lábios.
E eu que caminho aos solavancos pelas pedras cinzentas, imundas e gastas da calçada olho em frente com o coração a bater velozmente. Contemplo o rio. E quantas lembranças me traz.
Inspiro profundamente. De imediato, o meu olfacto delicia-se com um aroma tão característico. Cheira à casa da avó. Cheira a eucaplito, a cebola de refogado, a praia fluvial, a uvas maduras, a ervas daninhas, a flores de mil cores. Cheira a infância.

10 de setembro de 2011

Contradição


Pequenas gotas de água caem timidamente do céu. Céu esse que se encontra decorado por pedaços de algodão de tom cinzento. O vento atira as folhas umas contra as outras, obrigando-as voar pelos ares até caírem delicadamente no chão. A última viagem.
Respira-se melancolia. Poucas pessoas ocupam os passeios das ruas.
Apesar de toda esta apatia, quero ir lá para fora, quero ter de fugir da chuva, quero ter um destino para alcançar, quero ter um propósito.
Por muito ridículo que possa parecer, sinto falta das responsabilidades, de acordar cedo, de ter de andar apressadamente para cumprir um horário. Sinto falta da adrenalina de ter de fazer mil e uma coisas num curto espaço de tempo. Sinto falta dos desafios do quotidiano.
Estou prestes a ter tudo isso. O tique-taque do relógio vai dominar de novo a minha vida, as minhas emoções e decisões.
E já sei que daqui a uns tempos vou estar de joelhos a rezar por férias.
Haja quem me entenda.

31 de agosto de 2011

Crescer

Odiava a noite. Era um castigo ter que adormecer. Por isso, lavava os dentes e a cara muito calmamente e tomava um copo de leite quente para ter a sensação falsa de conforto e de segurança. Antes entrar na cama, espreitava para debaixo da mesma. Olhava cautelosamente para todo o espaço circundante. Acreditava piamente que quem provocava todas as coisas más eram monstros que se escondiam debaixo da cama das pessoas. Após uma exaustiva verificação, deitava-se e enroscava-se muito bem nos cobertores para se sentir protegido. No entanto, ficava estarrecido a olhar para a janela e para as sombras que as árvores faziam espontaneamente assim que o vento soprava. Adormecia por exaustão e, nos seus sonhos, estava a salvo. Não havia maldade, nem monstros, nem revoltas. Havia apenas um universo paralelo tecido pela ilusão e pela inocência de quem ainda teve pouco tempo para explorar o verbo "viver".
Tudo isto acabou quando ele finalmente percebeu que os monstros não moram debaixo das camas.
Moram dentro de nós.

19 de agosto de 2011

Submarino.

Vivo mergulhada neste espaço vazio e tão cheio ao mesmo tempo, nesta solidão a transbordar de pensamentos onde o óxigénio falha. Sufoco, sufoco em mim, na minha mente e olho em volta. Olho em volta e não estás. Saio da minha esfera difícil de quebrar, espreito a realidade e, rapidamente, sou de novo absorvida por esse mundo paralelo de ideias cruzadas, emaranhadas, turvas.
Levaste a minha razão contigo, é um facto. Por isso levitei até este espaço estranho que me acolheu e me engoliu. Preciso que voltes rápido e que me soltes, que rasgues as amarras que me prendem a este sítio profundo onde me encontro sentada, em estado autista, a ver a realidade a uma distância considerável. Quase que lhe consigo tocar mas há algo que se interpõe. Às vezes consigo mesmo alcançá-la, esticar a mão levemente para que possa flutuar neste mar de lágrimas e sentimentos que amarram com tanta força que até fazem sangue e deixam marcas nos pulsos. Mas não sou bem sucedida. Porque faltas tu e só tu. Porque há 605km entre nós. Ao menos consigo sentir o calor do teu coração.

17 de agosto de 2011

metamórphosis.

"Acabei" - disse ela para si mesma, com orgulho. O quadro finalmente estava pronto e correspondia àquilo com que ela havia sonhado. Resumindo, estava perfeito. O Sol entrava alegremente pela janela e o vento afastava, de forma tímida e leve, a cortina de cor pérola. Via-se pó no ar e sentia-se o cheiro de tinta fresca. Sentada num banco velho, de madeira, estava ela, contemplando a sua obra de arte. Os seus olhos espelhavam a satisfação que a alma sentia e ia esboçando sorrisos tolos. Estava feliz. A meta havia sido cortada, o troféu era dela, o pódio também. Como é bom sentir o sabor da glória.
Contudo, em poucos minutos a felicidade tinha partido para um lugar distante e duas lágrimas grossas caíam, de par em par. Dona de um sorriso desbotado, os seus olhos pareciam rodeados por uma camada grossa de tinta da china, que escorria; o seu tom de pele havia perdido a vitalidade natural e agora era pálido como a neve gelada.
Desequilibra-se do banco e fica no chão, imóvel, a assistir ao passar do tempo na esperança de que as horas lhe levassem os estilhaços de uma alma lacerada pela angústia, pela incerteza, pela ausência.
Sempre que ela se olhava ao espelho, não se reconhecia. Tinha-se perdido no labirinto do seu interior e já não sabia como encontrar a saída. Talvez porque a saída se fechou. Talvez porque já não há caminho de regresso. Talvez porque só uma pessoa a pode tirar do chão, abraçá-la e abrir-lhe a porta que ela própria não encontra. 
Se isso acontecer, ela vai sorrir de novo, vai correr pelo campo de feno e encher o cabelo com flores de mil cores. A porta que teima em fechar-se vai ser destruída. O verbo "sorrir" passará a integrar o seu quotidiano e juntar-se-à ao verbo "amar", o único que nunca a abandonou.

12 de agosto de 2011

la solitudine dei numeri primi.



« Viviam a lenta e invisível compenetração de seus próprios universos, como dois astros que gravitam em torno de um eixo comum, em órbitas cada vez mais estreitas, cujo destino claro é o de se unir em qualquer ponto do espaço e do tempo. »

2 de agosto de 2011

um lugar vazio.


Há alguns dias que me encontro a flutuar num sítio que não conheço. Luto contra mim mesma, bato com os punhos cerrados na mesa de madeira, tomo decisões. Rodo vezes sem conta, tento sair deste lugar sufocante, claustrofóbico. Apercebo-me de que estou a remar contra a maré.
Continuo a deriva, sei de mim e não me encontro. Olho para o relógio mas o Tempo castiga-me e as horas passam, uma a uma, vagarosamente e de forma amarga.
Um grito reprimido, uma dezena de lágrimas que percorrem a face e molham os lábios. Desespero.
E os ponteiros do relógio que mal se movem ? E o Sol que tarda em se pôr ?
Deixo-me levar pela corrente que o Destino pré-definiu. Porque dói lutar inutilmente.
Um dia acordo, abro os olhos e vejo-te a sorrir para mim. Nesse momento farás de mim a pessoa mais feliz do Universo, garanto-te.

A Saudade corrói.