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13 de janeiro de 2011

Insustentável Leveza do Ser.


“Insustentável leveza do ser” seria certamente o título que eu daria a esta fotografia, se me pedissem. Talvez por admirar Kundera, talvez pela assombrosa tranquilidade que esta obra de arte me transmite. Dona de uma melancolia extrema, é também portadora de uma atmosfera enigmática graças aos tons que a preenchem. Um elemento feminino surge, de algures, saltando para nenhures; não se sabe de onde vem nem para onde vai. Suspensa, como se fosse uma marioneta nas mãos do vento, a mulher exibe a sua audácia ao enfrentar o que todos temem - o desconhecido. O que me espanta é a sua plenitude, a sua serenidade, invejo-a. Como gostava de encarar o incógnito desta forma! Como gostava, tal como Pessoa, de ser alegremente inconsciente e ter a consciência disso! Como é bela a sua forma, a simplicidade que lhe é inerente, a total entrega!

Para mim, esta fotografia é algo semelhante ao teatro épico de Brecht, cuja distanciação entre a personagem e o espectador deve levar à reflexão e à consequente tomada de uma acção. Quando contemplo este retrato de bravura, apetece me viver, viver, viver; desfrutar de momentos efémeros, irrepetíveis como este, atingir a perfeição, derrotar o medo. Kundera estava certo – “Tudo se vive imediatamente pela primeira vez, sem preparação. Como se um actor entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que vale a vida se o ensaio da vida já é a própria vida? É o que faz com que a vida pareça um esquisso. Mas nem mesmo “esquisso” é a palavra certa, porque esquisso é sempre o esboço de alguma coisa, a preparação de um quadro, enquanto que o esquisso que a nossa vida é, não é esquisso de nada, é um esboço sem quadro”. Esta citação seria, certamente, a legenda que eu daria à fotografia em questão. Obra essa que encontrei, no meu computador, quando estava à procura de uma imagem para analisar neste trabalho. Apareceu-me diante dos olhos e, naquele preciso momento, concluí que tinha encontrado o que procurava. Não sei como foi parar aos meus documentos, já a devo ter guardado há muito tempo; também não sei quem é o autor. Pensando bem, o anonimato dá-lhe ainda mais poder, dado que a mensagem que transmite ganha um carácter ainda mais misterioso, obstinado. Segundo Roland Barthes, “the photographic image is a message without a code”.